A violência contra a mulher segue como uma das pautas mais recorrentes nos noticiários brasileiros e, mesmo com avanços na legislação, ainda provoca sensação de insegurança, especialmente em cidades do interior como Castro Alves, no Recôncavo baiano.
Com pouco mais de 24 mil habitantes, o município reflete uma realidade que atinge diversas cidades de pequeno porte no país.
De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, cerca de 50% dos feminicídios registrados no Brasil no último ano ocorreram em municípios com menos de 100 mil habitantes — locais que, em sua maioria, não contam com estrutura adequada de atendimento às vítimas.
Em Castro Alves, a violência contra a mulher não é apenas estatística, mas um tema presente no cotidiano da população. Especialistas alertam que o problema, muitas vezes, começa de forma silenciosa, com atitudes de controle e proibição dentro dos relacionamentos.
“Tudo começa com pequenas imposições: a roupa que a mulher pode usar, o batom que não deve passar, os lugares que não pode frequentar. Depois vêm os xingamentos, empurrões e, em muitos casos, a agressão física”, explica uma profissional que atua no enfrentamento à violência de gênero.
Falta de estrutura agrava o problema
Um dos principais desafios enfrentados por mulheres no interior é a ausência de atendimento especializado. Levantamento aponta que 95% dos municípios brasileiros com menos de 100 mil habitantes — incluindo Castro Alves — não possuem Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM).
Na região, o suporte ainda é limitado. Segundo a Polícia Civil, existem apenas cinco núcleos especializados, localizados em cidades como Santo Antônio de Jesus, Serrinha, Itaberaba, Valença e Santo Estevão. Já delegacias exclusivas para mulheres são ainda mais escassas, com unidades apenas em Feira de Santana e Alagoinhas.
Essa deficiência estrutural impacta diretamente no acolhimento das vítimas. Muitas mulheres relatam dificuldades no atendimento e até situações de revitimização ao buscarem ajuda.
“Às vezes, a mulher precisa reviver toda a situação ao procurar a delegacia, sendo questionada de forma inadequada. Isso cria um bloqueio e dificulta a denúncia”, destaca uma advogada que atua na área.
Perfil das vítimas e cenário preocupante
Os dados também revelam um padrão alarmante:
A maioria das vítimas são mulheres negras entre 30 e 49 anos;
Em cerca de 80% dos casos, o agressor é o parceiro ou ex-companheiro;
O crime ocorre, na maior parte das vezes, dentro da própria casa;
O uso de arma branca é predominante.
Além da violência física, fatores como dependência financeira e medo dificultam a denúncia. Muitas vítimas permanecem em silêncio por não terem para onde ir ou por receio das consequências.
Apoio familiar e conscientização são essenciais
Diante desse cenário, especialistas reforçam que o apoio da família e da comunidade é fundamental para romper o ciclo de violência.
“Muitas mulheres não denunciam porque não têm suporte. O acolhimento familiar é decisivo para que elas consigam sair dessa situação”, reforça uma integrante de projeto social voltado à proteção feminina.
Embora o Brasil conte com leis importantes, como a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio, a efetividade dessas medidas ainda esbarra na falta de estrutura, principalmente em cidades do interior.
Em Castro Alves, assim como em outros municípios do Recôncavo, o desafio vai além da legislação: passa pela ampliação da rede de apoio, investimento em atendimento humanizado e, principalmente, pela conscientização da sociedade sobre a gravidade da violência contra a mulher.
Bahia 10
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