‘Modões’ brilham mais do que LED no cabaré de Eduardo Costa e Leonardo

Foto: Divulgação

Houve todo um cuidado com o cenário criado por Zé Carratu para o segundo volume de Cabaré, projeto fonográfico que reuniu em 2014 os cantores sertanejos Eduardo Costa e Leonardo. Painéis de LED dão ar tão kitsch quanto hi-tech ao ambiente de Cabaré night club, sequência do bem-sucedido projeto da dupla. Contudo, a seleção do repertório sertanejo, composto basicamente pelos tradicionais modões, brilha mais do que os LEDs do show captado em setembro deste ano de 2016, sob direção de Joana Mazzucchelli, em três apresentações feita pela dupla no Espaço das Américas, na cidade de São Paulo (SP). Porque a força de Cabaré reside justamente na perenidade desde cancioneiro de grande empatia popular. Eduardo Costa e Leonardo reavivam músicas que calam fundo nos corações de um povo alheio aos padrões de bom gosto impostos pelas elites culturais. Músicas que são a trilha do chamado Brasil profundo.

O que se ouve em Cabaré night club – show cuja gravação ao vivo está sendo lançada em DVD, CD e  em edição digital pela gravadora Sony Music – é música pautada pela sofrência. A dor de corno bate forte em versos como os de Só mais uma vez (Gilberto e Gilmar, 1985), música que Leonardo já regravara sozinho em álbum de covers lançado em 2004. Como Eduardo Costa e Leonardo jamais inventam moda quando cantam estes modões, como mostram a interpretação e o arranjo da guarânia Se eu não puder te esquecer (Moacyr Franco, 1989), sucesso da dupla João Mineiro & Marciano, o show de Cabaré night clubtranscorre sem equívocos para quem tem ouvidos abertos para este gênero mais tradicional de música sertaneja.
Em essência, sob a reverente direção musical de Leandro Porto e Romário Rodrigues (feita com a adesão de Eduardo Costa), a dupla canta sucessos sertanejos das décadas de 1980 e 1990, compostos antes de o gênero se amalgamar com a música pop a partir dos anos 2000. O molde dessas músicas já antigas é similar. Mágoas e ressentimentos amorosos dão o tom de Não quero piedade (Ronaldo Adriano, Barrerito e Zé da Praia, 1980) e As andorinhas(Rossi, Alcio Alves e Rosa Quadros, 1981), sucessos nas vozes de integrantes do Trio Parada Dura, grande influência de duplas caipiras. Também hit do Trio Parada Dura, Telefone mudo(Franco e Peão Carreiro, 1981) volta a tocar em Cabaré night club no tom respeitoso com que Eduardo Costa e Leonardo encaram esses clássicos caipiras.
Fora desse universo, a boa surpresa é a abordagem, com a participação de Ivete Sangalo, de Mal acostumada (Meg Evans e Ray Araújo, 1997), tema forrozeiro do grupo Cabelo de Fogo tornado samba pelo grupo baiano Ara Ketu em gravação de 1998 e revivido com boa dose de latinidade da América Central no registro de Ivete com a dupla de cantores. Mas o bom número, valorizado pelo carisma de Ivete, é ponto fora da curva do roteiro. Eduardo Costa e Leonardo quase nunca se desviam do trilho sertanejo do primeiro Cabaré. Até porque a intenção é bisar o sucesso do primeiro volume. Por isso mesmo, o cenário é luxo até dispensável em DVD calcado em cancioneiro que ainda ecoa forte nos interiores do Brasil. (Cotação: * * * 1/2)

(G1)

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